Estar endividado pode dar a sensação de que você está tentando apagar vários incêndios ao mesmo tempo.
Uma parcela vence hoje. A fatura do cartão chega amanhã. Existe um empréstimo que ainda vai durar alguns meses. E, quando falta dinheiro, surge a tentação de fazer uma nova dívida para conseguir pagar a anterior.
Nesse cenário, é comum surgir a pergunta:
Qual dívida eu devo pagar primeiro?
A resposta não é simplesmente “comece pelo cartão” ou “pague primeiro o cheque especial”.
Antes de escolher uma ordem, você precisa entender quanto realmente deve, quanto as dívidas estão custando e quanto cabe no seu orçamento.
O Banco Central orienta que o primeiro passo para enfrentar o endividamento é tomar consciência da situação e mapear as dívidas, conhecendo informações como valores, prazos e taxas de juros. A partir daí, é possível buscar alternativas, renegociar e definir uma estratégia de pagamento.
E é isso que vamos fazer neste artigo.

Primeiro: pare de fugir dos números
Quando a dívida começa a apertar, é natural evitar olhar para a conta bancária, para a fatura do cartão ou para os contratos.
O problema é que não olhar para a dívida não faz com que ela desapareça.
Pelo contrário.
Sem saber exatamente o que está acontecendo, você pode continuar tomando decisões no escuro.
Por isso, o primeiro passo é simples:
pare e faça um diagnóstico.
Não precisa começar com uma planilha complicada.
Pegue papel e caneta, abra os aplicativos dos bancos e reúna todas as informações que conseguir.
O objetivo, neste momento, não é resolver tudo.
É entender o tamanho do problema.

1. Faça uma lista de todas as suas dívidas
Comece colocando todas as dívidas em um único lugar.
Para cada uma, procure registrar:
- quem é o credor;
- qual é o valor atual da dívida;
- qual é o valor da parcela;
- quantas parcelas ainda faltam;
- qual é a taxa de juros;
- qual é o Custo Efetivo Total (CET), quando essa informação estiver disponível;
- se a dívida está em dia ou atrasada;
- quais encargos estão sendo cobrados;
- se existe alguma possibilidade de negociação.
Não confie apenas na memória.
Uma dívida que você esqueceu de colocar na lista continua sendo uma dívida.
| LEVANTAMENTO DE DÍVIDAS | ||||||||
| Modelo ilustrativo para mapeamento, priorização e negociação das obrigações do cliente | ||||||||
| nome: | data | 17/09/2026 | ||||||
| Credor | Valor atual da dívida | Valor da parcela | Parcelas restantes | Taxa de juros (% a.m.) | CET (% a.a.) | Situação | Encargos cobrados | Possibilidade de negociação |
| Banco Horizonte (fictício) | R$ 18.500,00 | R$ 920,00 | 24 | 2,15% | 29,80% | Em dia | IOF e tarifa administrativa | Sim — portabilidade ou redução da taxa |
| Financeira Alfa (fictícia) | R$ 7.800,00 | R$ 650,00 | 12 | 3,80% | Não informado | Atrasada | Multa de 2% e juros de mora de 1% a.m. | Sim — desconto para quitação ou alongamento |
| Cartão Vértice (fictício) | R$ 4.600,00 | R$ 575,00 | 8 | 12,90% | 198,40% | Atrasada | Juros rotativos, multa de 2% e mora de 1% a.m. | Em análise — parcelamento do saldo |
| RESUMO DO EXEMPLO | ||||||||
| Dívida total | R$ 30.900,00 | Ponto de atenção | ||||||
| Compromisso mensal | R$ 2.145,00 | |||||||
| Contratos atrasados | 2 | |||||||
| Saldo em atraso | R$ 12.400,00 | |||||||
E se eu nem souber todas as dívidas que tenho?
Se você possui operações de crédito com bancos e instituições financeiras, uma alternativa é consultar o Relatório de Empréstimos e Financiamentos (SCR) no Registrato do Banco Central.
O relatório pode mostrar informações como saldo devedor, tipo de operação, situação da dívida — em dia ou em atraso — e limites de crédito registrados no sistema.
Mas atenção: o relatório não substitui o levantamento dos seus demais compromissos. Você ainda precisa considerar, por exemplo, dívidas com lojas, familiares, prestadores de serviço ou outras obrigações que não estejam registradas no SCR.
2. Descubra quanto da sua renda já está comprometido
Agora vem uma pergunta importante:
Quanto do meu dinheiro já está comprometido com dívidas?
Some as parcelas e compromissos financeiros que você precisa pagar todos os meses.
Depois, compare esse valor com sua renda.
Mas não olhe apenas para as parcelas.
Uma dívida pode parecer “barata” porque a parcela cabe no bolso, mas consumir muito dinheiro ao longo de vários meses.
Por isso, além do valor da parcela, procure entender:
quanto vou pagar no total?
Essa diferença é importante.
Uma parcela menor nem sempre significa uma dívida mais barata.
3. Não tente resolver a dívida criando outra
Quando o dinheiro aperta, uma reação comum é pegar um novo empréstimo para pagar uma dívida antiga.
Isso pode fazer sentido em algumas situações, principalmente quando existe a possibilidade de substituir uma dívida mais cara por outra com condições melhores.
Mas simplesmente trocar uma dívida por outra não resolve o problema.
Você precisa comparar as condições.
Por exemplo:
“Minha parcela caiu de R$ 1.000 para R$ 600.”
Parece uma boa notícia.
Mas quanto você vai pagar no total?
Qual é a taxa de juros?
Qual é o prazo?
Existem tarifas ou outros custos?
A nova operação realmente reduz o custo da dívida ou apenas espalha o problema por mais tempo?
O Banco Central orienta que a renegociação pode ser uma alternativa para buscar condições mais vantajosas, inclusive com redução de juros ou ampliação de prazo, quando isso ajudar na reorganização financeira.
Por isso, parcela menor não deve ser confundida automaticamente com negócio melhor.
4. Então, qual dívida pagar primeiro?
Agora chegamos à pergunta principal.
E aqui existe um cuidado importante:
não existe uma ordem fixa que sirva para todas as pessoas.
Não é correto ensinar que toda pessoa deve necessariamente pagar:
rotativo → cheque especial → cartão parcelado → empréstimo → financiamento.
As condições de cada contrato podem ser diferentes.
Uma dívida de cartão pode ter determinado custo. Um empréstimo pessoal pode ter outro. Um financiamento pode ter condições completamente diferentes.
Por isso, em vez de decorar uma lista, aprenda a analisar.
Dê atenção especial às dívidas mais caras
O Banco Central orienta, em seu material de educação financeira, que sejam priorizadas as dívidas que cobram juros mais altos.
Isso significa que, depois de mapear suas dívidas, você deve comparar o custo financeiro de cada uma.
Pergunte:
- Qual dívida tem a maior taxa de juros?
- Qual está fazendo o saldo crescer mais rapidamente?
- Qual possui encargos elevados?
- Existe alguma dívida atrasada que precisa de atenção imediata?
- Existe uma possibilidade real de negociação?
- Quanto consigo destinar mensalmente para a quitação?
- Existe algum bem em garantia que posso perder pela falta de pagamento?
A resposta para essas perguntas ajuda a definir a estratégia.
Não é o nome da dívida que determina a prioridade. São as condições concretas daquela dívida dentro da sua realidade financeira.
5. Cuidado com o cartão de crédito e o cheque especial
Cartão de crédito e cheque especial merecem atenção especial porque algumas de suas modalidades podem apresentar custos financeiros elevados.
Mas isso não significa que você deva simplesmente decorar:
“Cartão sempre vem primeiro.”
ou:
“Cheque especial sempre vem primeiro.”
O correto é analisar a operação que você realmente contratou.
No caso do cartão, por exemplo, é importante entender se você está falando de uma compra parcelada, parcelamento da fatura, crédito rotativo ou outra modalidade.
Cada situação pode ter condições diferentes.
O Banco Central mantém conteúdos específicos sobre o uso do crédito e alerta para os custos envolvidos em modalidades como o rotativo do cartão.
Por isso, não olhe somente para o valor da parcela.
Olhe para o custo da dívida.
6. Renegociar pode ser parte da solução
Se você percebeu que não consegue pagar suas dívidas nas condições atuais, não espere o problema crescer indefinidamente.
Procure os credores e verifique as possibilidades de negociação.
Dependendo da situação, pode haver alternativas como:
- redução de juros;
- redução de encargos;
- alteração do prazo;
- mudança da forma de pagamento;
- quitação com desconto;
- substituição de uma dívida por outra com custo menor.
Mas não aceite uma proposta simplesmente porque a parcela ficou menor.
Antes de fechar o acordo, compare:
valor da parcela + número de parcelas + juros + custo total.
Uma negociação só faz sentido para o seu orçamento se você conseguir cumprir o acordo e se as novas condições forem realmente adequadas à sua situação.
7. Reduza o que for possível no seu orçamento
Sair das dívidas não depende somente de pagar mais.
Também depende de abrir espaço no orçamento.
Volte para seus gastos e procure identificar:
Gastos necessários
São aqueles relacionados às necessidades básicas da sua vida.
Exemplos:
- moradia;
- alimentação;
- água;
- energia;
- transporte;
- saúde.
Alguns podem ser reduzidos, mas não simplesmente eliminados.
Gastos que podem ser reduzidos
São despesas que podem ser revistas durante um período de reorganização.
Por exemplo:
- restaurantes;
- lazer;
- compras não essenciais;
- serviços que podem ser temporariamente reduzidos;
- assinaturas pouco utilizadas.
Desperdícios
Aqui existe uma oportunidade importante.
São gastos que consomem dinheiro sem entregar benefício proporcional.
Por exemplo:
- multas e juros por atraso;
- serviços que você paga e não utiliza;
- compras esquecidas;
- taxas desnecessárias;
- desperdícios dentro de casa.
O Banco Central também orienta identificar e eliminar despesas que beneficiam pouco você ou sua família, especialmente desperdícios. Leia também: gastos invisíveis.
O objetivo não é viver indefinidamente cortando tudo.
É criar espaço financeiro suficiente para atravessar o período de reorganização.
8. Durante a quitação, evite alimentar a dívida
Esse ponto parece óbvio, mas é um dos mais importantes.
Se você está tentando sair das dívidas enquanto continua fazendo novas dívidas, fica muito mais difícil perceber evolução.
Por isso, durante esse período, procure:
- evitar novas compras parceladas;
- reduzir o uso do crédito quando ele estiver comprometendo seu orçamento;
- não usar um cartão para pagar outro;
- não assumir novas parcelas sem avaliar o impacto no orçamento;
- evitar empréstimos feitos apenas para cobrir gastos do mês.
O Banco Central também destaca que não fazer novas dívidas é uma atitude fundamental para interromper o ciclo do endividamento.
Isso não significa que toda utilização de crédito seja errada.
Significa que, quando você está tentando sair de um ciclo de endividamento, precisa tomar cuidado para não continuar aumentando os compromissos futuros.
9. Monte um plano que caiba na sua vida
Depois de levantar as dívidas, revisar o orçamento e analisar as condições de cada uma, chega a hora de montar o plano.
E aqui está uma regra que considero mais importante do que qualquer fórmula:
o plano precisa ser possível de cumprir.
Não adianta estabelecer uma parcela de R$ 2.000 por mês se, depois de pagar suas despesas essenciais, você só consegue separar R$ 800.
Um plano impossível não é um plano.
É uma nova fonte de frustração.
Por isso, defina:
Quanto consigo destinar por mês para sair das dívidas sem comprometer minhas necessidades básicas?
Esse valor será uma das referências para sua estratégia.
10. Um exemplo simples
Imagine uma pessoa que possui três dívidas:
| Dívida | Parcela | Situação | Custo |
|---|---|---|---|
| Cartão de crédito | R$ 500 | Em atraso | Alto |
| Empréstimo pessoal | R$ 700 | Em dia | Médio |
| Financiamento | R$ 900 | Em dia | Menor |
Ela não deve simplesmente decidir:
“Vou pagar o cartão porque cartão sempre vem primeiro.”
O primeiro passo é analisar as condições reais das três dívidas.
Se o cartão possui o maior custo financeiro, pode fazer sentido concentrar esforços nele, enquanto mantém os demais compromissos conforme o plano estabelecido.
Mas se existir uma proposta de renegociação que altere significativamente as condições, essa nova proposta também precisa ser considerada.
A estratégia nasce da análise.
Não da decoração de uma lista.
11. E se eu não conseguir pagar tudo?
Essa é uma situação que precisa ser tratada com seriedade.
Se, depois de pagar as despesas essenciais, não sobra dinheiro suficiente para cumprir todos os compromissos, o problema não é simplesmente “falta de disciplina”.
Pode existir um desequilíbrio estrutural entre renda, despesas e dívidas.
Nesse caso, talvez seja necessário:
- reduzir despesas;
- renegociar dívidas;
- buscar melhores condições;
- aumentar a renda;
- procurar orientação profissional;
- envolver a família na reorganização financeira.
O Banco Central recomenda buscar ajuda e compartilhar as dificuldades com pessoas que possam contribuir para a solução.
Em situações de superendividamento, também pode ser necessário buscar orientação pelos canais adequados de defesa do consumidor e pelas vias previstas na legislação.
12. Não transforme a dívida em culpa
Existe uma diferença importante entre assumir responsabilidade e carregar culpa.
Você precisa assumir responsabilidade pelas decisões financeiras que tomou.
Mas isso não significa passar o resto da vida se castigando por elas.
Dívidas podem surgir por diversos motivos:
- falta de planejamento;
- perda de renda;
- emergência;
- uso inadequado do crédito;
- consumo impulsivo;
- excesso de compras parceladas;
- problemas familiares;
- acontecimentos inesperados.
O próprio Banco Central reconhece diferentes fatores associados ao endividamento.
O mais importante agora é perguntar:
“O que eu posso fazer a partir de hoje para mudar essa situação?”
Essa pergunta é mais útil do que:
“Por que eu fiz isso?”
13. Sair das dívidas é mais do que pagar boletos
Quitar uma dívida é importante.
Mas o objetivo final não deveria ser apenas chegar ao momento em que o saldo devedor fica zerado.
É preciso entender por que a dívida aconteceu.
Se o problema foi falta de organização, será necessário desenvolver organização.
Se foi o uso excessivo do cartão, será necessário rever a relação com o crédito.
Se foram compras por impulso, será necessário entender os gatilhos de consumo.
Se a renda não estava sendo suficiente, será necessário trabalhar também o orçamento e, quando possível, buscar alternativas para aumentar a renda.
Caso contrário, existe o risco de quitar as dívidas e voltar ao mesmo comportamento alguns meses depois.
Um caminho prático para começar hoje
Se você está endividado e não sabe por onde começar, faça apenas estas cinco coisas:
1. Liste todas as suas dívidas
Não esconda nenhuma.
2. Descubra quanto realmente deve
Veja saldo, parcelas, juros e prazos.
3. Analise seu orçamento
Descubra quanto realmente sobra depois das despesas essenciais.
4. Compare as dívidas
Dê atenção especial às que apresentam maior custo financeiro e avalie as possibilidades de negociação.
5. Monte um plano possível
Defina quanto você consegue pagar todos os meses e evite criar novas dívidas durante o processo.
Para lembrar
Você não precisa resolver toda a sua vida financeira em um único dia.
Mas precisa começar a enxergar a situação com clareza.
Primeiro, perceba.
Quanto você deve?
Depois, compreenda.
Por que essas dívidas aconteceram e quanto elas estão custando?
Então, ajuste.
O que precisa mudar no orçamento, no uso do crédito e nos seus hábitos?
E, principalmente:
não tente sair das dívidas usando a mesma estratégia que ajudou a criá-las.
Sair das dívidas não é simplesmente encontrar dinheiro para pagar boletos.
É recuperar espaço no orçamento, reorganizar suas escolhas e construir uma relação mais consciente com o dinheiro.
Quem olha para o problema com clareza consegue começar a construir uma saída.
Fontes e informações complementares
O Banco Central disponibiliza conteúdos de educação financeira sobre endividamento, organização financeira, crédito e formas de lidar com dívidas. Entre os materiais utilizados como referência para este artigo estão o conteúdo de cidadania financeira do BC e o material “Como lidar com dívidas”, que orienta mapear as dívidas, evitar novas dívidas, renegociar e priorizar aquelas que possuem juros mais altos.
Importante: as condições de cada dívida variam. Antes de contratar uma renegociação, empréstimo ou outra operação de crédito, compare as condições da proposta e considere sua capacidade real de pagamento.
Para consultar dívidas e compromissos registrados em bancos e instituições financeiras, o Banco Central também disponibiliza o Relatório de Empréstimos e Financiamentos (SCR) por meio do Registrato.
Olá, Daniel Sanchez
Fonte Banco Central: https://www.bcb.gov.br/cidadaniafinanceira/saindo-sufoco
